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Page 51
_Offerecendo alguns dos Versos, que v�o neste Livro ao lllustrissimo,
Excellentissimo Senhor Marquez de Angeja, Ministro de Estado, perante o
qual se pertendeo desabonar a Poezia, e os Poetas_.
ILL.^MO E EXC.^MO SENHOR.
V. Excellencia se digne de n�o julgar atrevimento ir eu aprezentar hum
Livro de inuteis Versos naquellas mesmas m�os, em que se apresent�o
Papeis, que decidem dos interesses do Estado, e dos destinos dos homens.
A Poezia, Senhor, s� he odioza a quem nella n�o he instruido. V.
Excellencia sabe a origem, e os progressos desta Arte divina; sabe que
de seu ber�o foi consagrada ao uzo da Religi�o, e da Politica; que por
meio della o homem natural, que nutria vagamente entre fragas, e
pened�as hum cora��o t�o contrario ao do homem civil, conheceo a
humanidade, e tomou sobre seus hombros o jugo da Raz�o, e da Justi�a.
Que os primeiros Legisladores escrevi�o as Leis em verso, para que a
harmonia lhes aplanasse, ou encubrisse aquelles passos escabrozos, que
ferem, e revolt�o a nossa natureza, sempre amiga da liberdade; que os
Filosofos, e Sacerdotes do Egypto ensinav�o em Poezia os seus Dogmas;
que os bons tempos dos Gregos, mod�lo dos Seculos de Augusto, e de Luiz
XIV, ao mesmo passo que se alargav�o os limites do seu Imperio, v�r�o
levadas � ultima perfei��o, de que s�o capazes as obras dos homens, a
Lirica, a Epica, e a Poezia de theatro.
V. Excellencia sabe, que os Poetas de Augusto, mais do que as Victorias
de Farsalia, fizer�o chamar-se o seu seculo, o seculo de Oiro: que a
passagem do Rheno, e a conquista da Hollanda jazeri�o no esquecimento,
com o nome de Luiz XIV, se Corneille, e os que o segu�r�o, n�o mandassem
�s extremidades do Mundo a fama de suas Victorias; que ainda hoje a
Fran�a conta, com prazer, entre as ac�es daquelle Monarca, a protec��o,
e acolhimento, que ach�r�o ante elle as Artes, principalmente a da
Poezia; e que as ultimas palavras do grande Corneille moribundo, for�o
agradecimentos �s liberalidades de Luiz XIV.
V. Excellencia sabe, que a Augusta Theologia da Escritura nos instrue
muitas vezes dos Attributos de Deos por imagens inteiramente poeticas;
que os Profetas, unindo maravilhosamente o simples ao sublime, fall�o da
existencia, e da Omnipotencia de Deos, com a locu��o, e com as figuras
da mais alta Poezia.
Mas, SENHOR, eu insensivelmente vou fazendo de huma Dedicatoria huma
Disserta��o. V. Excellencia se digne attribuir este erro de methodo �
desordem de animo, em que me p�e a ingrata sem-raz�o de ver os Poetas
desfavorecidos de alguns homens, talvez sem mais crime, que serem
favorecidos das Muzas.
V. Excellencia, em cuja alma raia a raz�o illustrada, limpa das sombras
do abuzo, n�o faz cahir sobre o Poeta os defeitos, que s�o do homem: a
inconstancia de genio, o desconcerto das ac�es, a filozofia mal
entendida, que caminha a passo cheio � devassid�o de costumes, s�o os
crimes de que o vulgo errado accuza indifferentemente todos os Poetas;
mas se vemos que estas m�s qualidades brot�o no cora��o de tantos
homens, que n�o s�o Poetas, para que h�o de elles s�s levar o ferrete,
que a Natureza corrupta p�e indistinctamente sobre todos os que n�o
deix�o guiar-se da Religi�o, e da honra? Sempre houve Poetas, bem, e mal
morigerados, assim como o resto dos outros homens: e porque lei barbara
ha de pagar a Poezia as fraquezas da humanidade? Porque falsa Logica
havemos inferir, que o commercio das Muzas, a suave li��o dos Antigos,
em que vemos pintada a Natureza, e explicada docemente a boa filozofia,
ha de affogar no cora��o do Poeta as virtudes, que a �ndole, ou a
educa��o talvez alli plant�r�o?
V. Excellencia julga mais rectamente; sabe, que em todos os ramos da
vida Christ�, e Civil tem havido Poetas, que hum talento n�o exclue os
outros; que Richilieu fazia Versos, e foi grande Ministro; que entre os
Poetas, como entre todos os mais homens, huns s�o venturozos, outros
desgra�ados; huns chamados aos grandes Empregos, ontros inteiramente
esquecidos; que se houve hum Cam�es, e hum Bernardes, cuja memoria
posthuma foi a unica paga do seu merecimento; tambem, houve hum S� e
Menezes levantado a Camareiro M�r dos Senhores Reis D. Jo�o o III, e D.
Sebasti�o; hum Pedro de Andrade Caminha, Camareiro M�r do Infante D.
Duarte; hum Garcia de Rezende muito estimado do Senhor D. Jo�o o II;
hum S� de Miranda feito Commendador pelo Senhor D. Jo�o o III; e para
n�o fazer hum catalogo quazi infinito, houve o grande Ferreira, e
Gabriel Pereira de Castro, os quaes, cada hum no gosto do seu Seculo,
misturando Bartholo, e Accureio com Homero, e com Virgilio, for�o t�o
estimados pelos Versos, que fazi�o no seu gabinete, como pelas Senten�as
que lan��r�o nos diversos Tribunaes a que for�o promovidos.
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