O Mandarim by Eça Queirós


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Page 25

De tarde ia � esc�la, admirar os pequenos chinezes declinando _Hora,
Horoe_... E depois do refeitorio, passeando no claustro, escutava
historias de longiquas miss�es, de viagens apostolicas ao _Paiz das
Hervagens_, as pris�es supportadas, as marchas, os perigos, as Chronicas
heroicas da F�...

Eu por mim n�o contei no convento as minhas aventuras phantasticas:
dei-me como um _touriste_ curioso, tomando apontamentos pelo Universo. E
esperando que a minha orelha cicatrizasse, abandonava-me, n'uma lassid�o
d'alma, �quella paz de mosteiro...

Mas estava decidido a deixar bem depressa a China, esse Imperio barbaro,
que eu odiava agora, prodigiosamente!

Quando me punha a pensar que viera desde os confins do Occidente, para
trazer a uma provincia chineza a abundancia dos meus milh�es, e que
apenas l� cheg�ra f�ra logo saqueado, apedrejado, fr�chado--enchia-me um
rancor surdo, gastava horas agitando-me pelo quarto, a revolver coisas
feras que tentaria para me vingar do Imperio do Meio!

Retirar-me com os meus milh�es era a desforra mais pratica, mais facil!
Demais, a minha id�a de resuscitar artificialmente, para bem da China, a
personalidade de Ti-Chin-F�, parecia-me agora absurda, d'uma insensatez
de sonho. Eu n�o comprehendia a lingua, nem os costumes, nem os ritos,
nem as leis, nem os sabios d'aquella ra�a: que vinha pois fazer alli,
sen�o exp�r-me, pelo apparato da minha riqueza, aos assaltos d'um povo,
que, ha quarenta e quatro seculos, � pirata nos mares e traz as terras
varridas de rapina!...

Al�m d'isso, Ti-Chin-F� e o seu papagaio continuavam invisiveis,
remontados de certo ao C�o chinez dos Av�s: e j� o aplacamento do
remorso visivel diminuira em mim singularmente o desejo da expia��o...

Sem duvida o velho letrado estava fatigado de deixar essas regi�es
ineffaveis para se vir estirar pelos meus moveis. Vira os meus esfor�os,
o meu desejo de ser util � sua prole, � sua provincia, � sua ra�a--e,
satisfeito, accommod�ra-se regaladamente para a sua s�sta eterna. Eu
nunca mais avistaria a sua pan�a amarella!...

E ent�o mordia-me o appetite de me achar j� tranquillo e livre, no
pacifico gozo do meu oiro, ao Loreto ou no _boulevard_, sorvendo o mel
�s fl�res da Civilisa��o...

Mas a viuva de Ti-Chin-F�, as mimosas senhoras da sua descendencia, os
netos pequeninos?... Iria eu deixal-os barbaramente, na fome e no frio,
pelas viellas negras de Tien-H�? N�o. Esses n�o eram culpados das
pedradas que me atir�ra a popula�a. E eu christ�o, asylado n'um convento
christ�o, tendo � cabeceira da cama o Evangelho, cercado d'existencias
que eram incarna�es de Caridade--n�o podia partir do Imperio sem
restituir �quelles que despoj�ra, a abundancia, esse conforto honesto
que recommenda o Classico da Piedade Filial...

Ent�o escrevi a Camilloff. Contava-lhe a minha abjecta fuga, sob as
pedras da turba chineza; o abrigo christ�o que me dera a Miss�o; o vivaz
desejo de partir do Imperio do Meio. Pedia-lhe que remettesse elle �
viuva de Ti-Chin-F� os milh�es depositados por mim em casa do mercador
Tsing-F�, na avenida de Cha-Coua, ao lado do arco triumphal de Tong,
junto ao templo da deusa Kaonine.

O alegre padre Loriot, que ia a Pekin em miss�o, levou esta carta, que
eu lacr�ra com o s�llo do convento--uma cruz sahindo d'um cora��o em
chammas...

Os dias passaram. As primeiras neves alvejaram nas montanhas
septentrionaes da Manchouria: e eu occupava-me a ca�ar a gazella pela
Terra das Hervas... Horas energicas e fortemente v�vidas, as d'essas
manh�s, quando eu largava � desfilada, no grande ar agreste da planicie,
entre os monteadores mongolicos que, com um grito ululado e vibrante,
batiam o matagal � lan�ada! Por vezes, uma gazella saltava: e, d'orelha
baixa, estirada e fina, partia no fio do vento... Soltavamos o falc�o
que voava sobre ella, d'aza serena, dando-lhe a espa�os regulares, com
toda a for�a do bico recurvo, uma picada viva no craneo. E iamo'l-a
abater, por fim, � beira d'alguma agua morta, coberta de nenufares...
Ent�o os c�es negros da Tartaria amontoavam-se-lhe sobre o ventre, e,
com as patas no sangue, iam-lhe a ponta de dente, desfiando devagar as
entranhas...

Uma manh� o leigo da portaria avistou emfim o alegre padre Loriot,
galgando � lufa-lufa pelo caminho ingreme do burgo, de volta de Pekin,
com a sua mochila ao hombro, e uma criancinha nos bra�os: tinha-a
encontrado abandonada, nuasinha, morrendo � beira d'um caminho:
baptis�ra-a logo n'um regato com o nome de _Bem-Achado_: e alli a
trazia, todo enternecido, arquejando de tanto que estug�ra o passo, para
dar depressa � creaturinha esfomeada o bom leite da cabra do convento...

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Books | Photos | Paul Mutton | Wed 14th Jan 2026, 11:43